
“Por que são tão lindos os cavalos? Por que tem tanta beleza no mundo? Por que às vezes esquecemos? Eu não me esqueço.” Julieta Correa, 37, encontrou essas frases em um dos cerca de 80 cadernos de Sara Maria Marta, ou Sari López, ou apenas Sari, sua mãe. Ao lado delas, o desenho de um equino; depois, quase nada: o restante das páginas estava praticamente vazio. O fragmento se tornou uma das epígrafes e deu título ao romance de estreia da escritora argentina.
Antes de virar literatura, porém, aquele arquivo foi percorrido pela filha. Ela sabia que a mãe mantinha diários, mas nunca os leu. Afinal, eles pertenciam à intimidade da matriarca — “era como se ela tivesse a vida dela escrita e eu tivesse a minha” — até que, em 2020, as falhas de memória de Sari se tornaram frequentes e as perguntas dos médicos levaram Correa a procurar naqueles registros pistas sobre o que estava acontecendo.
Desde menina, Correa também escreve o que se passa nos seus dias, em parte inspirada pela mãe. Na pandemia, passou a registrar as consultas, as mudanças de comportamento e as frases de Sari, algumas desconcertantes, outras bem-humoradas. Em determinado momento, separou tudo em um documento, uma espécie de caixa-preta sobre a doença e a experiência do cuidado.
O material ainda não era, para Correa, um projeto de publicação, mas uma maneira de pensar, recordar e organizar o que vivia. Isso mudou no fim de 2023, quando o mostrou à editora Marina Yuszczuk. Ao dizer que gostaria de publicar “seu livro”, Yuszczuk ajudou a transformá-lo em um. “Quando as palavras dão nome a alguma coisa, também a criam”, afirma.